segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Um Carnaval diferente II

O dia nasceu e eu acordei, energética. Como ninguém tinha acordado, decidi fazer alguns exercícios de ginástica, algo que nunca costumava fazer quando estava em casa. Fui a primeira a tomar banho, sequei o cabelo, vesti-me, e dirigi-me à cozinha. As janelas do andar de baixo estavam todas abertas. Os rapazes já tinham andado a fazer das suas! Fechei apressadamente cada uma das janelas, sentido o frio gelado do exterior na pele. Suspirei e entrei na cozinha, dando passos largos. Estava com fome, e não aguentava esperar mais um minuto. Parei junto ao frigorífico e abri-o. Fiquei a olhar para as prateleiras que nele se encontravam, durante largos segundos, tentando raciocinar. Estava vazio. Preparei as minhas cordas vocais e gritei, melódicamente, de forma a que toda a gente da casa me pudesse ouvir, e também os vizinhos que viviam a um quilómetro de distância:
- Quem tirou a comida do frigorifico?!
Ninguém respondeu durante um bocado, mas eu tornei a gritar. Comecei a ouvir resmungos provenientes do quarto dos rapazes.
- O que é que queres, chata! - exclamou o Coelho.
- Alguém tirou a comida do frigorifico. Quero saber quem foi!
- Não foi nenhum de nós os quatro - disse Michael, calmamente.
Os meus olhos ficaram imersos na simpatia que Michael exalava e suspirei profundamente. Quando dei por mim, estava toda a gente a olhar-me, incluindo as raparigas que já tinham descido para o piso térreo. Olhavam-me de forma trocista e Michael sorria. Suspirei e novo e retomei o fôlego:
- Não há comida no frigorífico, pensei que tivesse sido algum de vocês.
- Eu não fui... - iam dizendo, um a um, todos os membros do grupo.
- Só podem estar a gozar! - exclamou a Rita, zangada.
- Eu não gastei tudo, ontem. - disse João, apressadamente.
- De certeza que esconderam tudo algures! - exclamei.
- Eu sei onde a comida está - disse Ana, olhando pela janela.
A Rita correu até ao parapeito e gemeu, o Coelho seguiu-a, saltitando. Troquei um breve olhar com o João e dirigimo-nos também para lá. A expressão dele foi igual à minha, quando vimos toda a nossa comida espalhada pelo pátio. Tudo estava coberto de lama, porque parte da neve havia derretido durante a noite.
- Ok, quem fez isto?! - Gritou a Rita.
- Não fui eu, juro! - exclamou Ricardo.
- Vamos lá fora ver se podemos recuperar alguma coisa. - sugeri.
Fui a única a ir lá para fora, porque todos os outros se encontravam ainda em pijama. Obrigadinha. Consegui recuperar apenas algumas embalagens não utilizadas, como manteiga, sopa em pacote, uma caixa de gelado de chocolate, e sei lá que mais. Suspirei a tomar o meu pequeno-almoço. Gelado, ao pequeno-almoço, no Inverno, mas que bela refeição. A pessoa que mais se queixou foi o Coelho, resmungando ainda mais do que a Rita:
- Fogo... Isto é injusto, porque é que tenho de comer sopa?
- É o que há... - tranquilizou-o Michael.
Ai! Como era tão bom ouvir a voz do Michael, tão suave e melodiosa... Senti o meu coração a bater mais rápido. João e Ricardo olhavam-me com desdém.
- Temos de ir comprar alguma comida, não acham? - sugeriu a Ana.
- Bem... Acho que sim... - disse o Ricardo, sorrindo-lhe.
- Eu não vou. Já tive uma trabalheira a comprar as primeiras provisões! - exclamou Rita, sorrindo maléficamente.
- Se não vais tu... Vamos nós! - disse João, olhando-a, aborrecido.
O sorriso falso dela desvaneceu-se e ela foi buscar a carteira com o dinheiro que todos tinham guardado para a viagem. Pelos vistos, esse estava intacto.
- Está aqui o dinheiro, - disse ela, entregando-a à Ana - Não se esqueçam de trazer água engarrafada.
Soltei um suspiro e segui o restante grupo agora se encontrava reunido junto à porta de entrada.
- Eu fico bem, não se preocupem! - garantiu-lhes Rita - Não se demorem! É só 15 minutos a pé até à vila.
- Sim, claro... - respondeu Coelho, com uma voz quase inaudível.

Percorremos o asfalto negro a pé. O Michael não tencionava conduzir durante as férias, porque podia haver um deslize. Mas foi bastante divertido, conversámos acerca da casa e das regalias que a Rita agora possuía desde que recebera vários bens provenientes dos seus tios que viviam no Alentejo. Finalmente alcançámos o pequeno supermercado, numa esquininha suja da vila. Entrámos e, na galhofa, escolhemos os vários artigos que queríamos. O dono da loja não parecia muito satisfeito com a nossa presença, mas assim que viu tudo o que íamos comprar, sorriu impacientemente. Já de saída, todos carregámos os nossos sacos, uns com mais sacos, outros com menos. Eu encarreguei-me de levar um garrafão de água.
- Menina forte, hein? - observou João.
- Nem por isso. - respondi-lhe, olhando para Michael, que carregava mais sacos do que qualquer outra pessoa.
- Já me doem as mãos... Ai! - queixou-se Ana.
- Não te preocupes, estamos quase a chegar! - tranquilizou-a Coelho.
Já conseguíamos ver a casa ao longe, por isso apressamos o passo. Ouvimos um grito estridente, que nos deixou sobressaltados.
- Há pássaros aqui? Aquilo parecia um papagaio! - riu-se João.
- Bem, acho que não! - disse Coelho, pousando os sacos dele para descansar as mãos avermelhadas pelo frio e pela força.
- Vá lá! Vamos para dentro, estou a morrer de frio! - gritei.
- Não te preocupes, está quase. - disse Michael, irresistivelmente.
Frio? Já não tinha frio! Estava a derreter-me. O Michael não podia ser humano, ele é demasiado fantástico para o ser. Mais uma vez, subimos a encosta íngreme até à porta de entrada do chalé. Olhei para o chão à sua frente. Já não havia vestígios de lixo. A Rita tinha feito um óptimo trabalho. Entrámos dentro de casa e pousamos tudo o que carregávamos.
- Rita? Alô? Onde estás?! - gritou Ricardo, sonoramente.
Mas ela não respondeu.
- Acho que a vou procurar, deve estar a dormir, ou talvez a tomar banho, ou na piscina... Sei lá. - ofereceu-se Ana.
Será que ela sabia mesmo onde ir? O chalé era gigante. Usávamos apenas dois dos sete quartos existentes!
Comecei a por cada embalagem no seu lugar próprio, enquanto os rapazes falavam acerca de snowboard. Estava a por o leite no armário quando ouvi um grito. Era a Ana! Olhei para os rapazes, eles também estavam assustados. Corri em direcção ao grito, sendo seguida por todos os outros. Parei junto à Ana, que se encontrava ajoelhada, junto a uma porta, que dava para a piscina interior. Abri-a. Encontrava entreaberta e tentei ver o que havia lá dentro. Senti-me horrorizada... Senti-me desfalecer... Senti o impacto quando cai no chão...