
A chuva alcançava o chão do passeio cimentado, com uma força natural. Os salpicos desta alcançavam a minha cara, refrescando-a serenamente. Tinha acabado de anoitecer, eram sete da tarde. Continuei a caminhar, lentamente, no meu caminho habitual para casa. Conseguia ver crianças a correr, o mais rápido que podiam, para se poderem abrigar da chuva e do vento que por vezes se fazia sentir com alguma intensidade. Olhei para o céu, tentando ver algumas estrelas. Não há estrelas, apenas nuvens, nuvens cinzentas e carregadas, prontas a estragar mais uma noite para várias pessoas. Mas não a minha. Olhei para os bancos de jardim, molhados, num tom mais escuro do que o habitual. A madeira escurecida fazia sobressair ainda mais os graffittis feitos com corrector, a maior parte já muito antigos. Sorri. Eu também fazia parte dos vândalos do corrector, mas já havia sido há muito tempo. Aproximei-me, sentido-me encharcada, do banco, e olhei para a arte da escrita na sua forma mais primitiva. "Aquela frase fui eu quem escreveu", pensei, olhando para uma citação de uma música que há muito não ouvia. Sentei-me no banco. Já estava completamente molhada, que diferença faria? Os ruidoso carros, virando a esquina eram o único som que ouvia, para além das gotas da chuva a bater-me no casaco escuro. Um outro som atraiu a minha atenção e olhei para o lado. Era um rapaz de bicicleta, com cabelo castanho claro desgrenhado, pensei eu. Era demasiado difícil ter a certeza, porque este estava tão encharcado quanto eu. Ele olhou-me, com incredulidade, como se tivesse reencontrado uma velha conhecida, o que não se aplicava nessa altura. Aproximou-se um pouco do local onde eu estava e pousou a bicicleta junto a uma árvore. Os seus passos silenciosos aproximaram-se de mim e eu senti-me ruborizar com o pânico. "Mas o que é que ele está a fazer? Será que me vai assaltar?", pensei eu, ainda sobressaltada. Olhei para ele, com uma cara assustada, acho eu, e ele sorriu-me ternamente. Fiquei imóvel. "Os ladrões costumam sorrir assim tanto?", perguntei à minha mente cheia de imaginação. Levantei-me do banco, pronta para me ir embora, mas senti algo a agarrar-me o ombro. Virei-me, pronta para dar luta, mas o rapaz observava apenas a minha expressão. Deu um passo em frente, olhou-me nos olhos e beijou-me, calmamente. "O que se passa?", gritei interiormente. Quem era ele? O que estava ele a fazer? Senti o seu abraço terno a desvanecer-se, e olhei para cima. O sorriso dele contagiou-me e eu senti a cabeça à roda. Ele caminhou até à bicicleta e abandonou o pequeno jardim deserto, ou quase deserto. Fiquei em pé, tensa, ainda olhando para o local por onde ele havia desaparecido.
Nessa noite, não consegui dormir.

