Personagens do bitefight.pt, enjoy!
I
Laranjao olhou Angel nos olhos como se nunca mais a pudesse voltar a ver e levantou-se lentamente da mesa. Aquele tinha sido o jantar de familia mais longo da sua vida e também aquele que iria decidir o seu futuro. Ele sabia que só tinha duas escolhas: lutar para encontrar a sua amada Princesa Sónia, ou simplesmente, desistir de a reencontrar. Os escassos meses durante os quais ele convivera com Sónia serviram-lhe de muito, ele tinha descoberto, finalmente, o que o verdadeiro amor era. Bastara apenas uma ida à cidade para que toda a sua vida se desmoronasse, se incendiasse, se tornasse inútil! Ele tinha perdido tudo o que ele sempre achara precioso e não sabia como recuperar tal jóia. O misterioso desaparecimento dela tornou-se num puzzle para ele, algo que ele não conseguia decifrar, um enigma perdido... Talvez... Mas à espera de ser achado. O velho sábio Said bem lhe dissera firmemente «Sabes como é perigoso para uma pessoa como ela viver aqui entre nós, e tens noção das probabilidades que ela tem de ser raptada pelos nossos inimigos!» E isso fazia o jovem guerreiro sentir-se culpado mas, em contrapartida, inocente. Angel era a única pessoa que sempre aprovara a relação entre eles e de tudo fazia para ajudar o primo:
- Tem de haver uma maneira! Bem... Eu não sei qual... Mas tem de haver!
- Não me dês falsas esperanças, Angel. Eles levaram-na e não sei como a vou recuperar! - respondeu Laranjao, num tom de voz melancólico.
- Esperança é algo que não tens! Eu vi as pessoas que a levaram! Eu posso-te ajudar! - exclamou Angel, com vivacidade.
- Sim, sim. Vamos os dois lutar contra um exército astronómico com a tua flauta?
- Uhm... Talvez pudesse result...
- Não, não, não! - interrompeu-a Laranjao com um grito forte.
Angel olhou de volta para a mesa, todos olhavam para eles, chocados. Ela tinha de agir o mais rapidamente possivel. Tinha de dar a Laranjao algo em que pudesse acreditar, nem que tivesse de mentir! Precisava de um aliado urgentemente, mas não se conseguia lembrar de alguém com as aptidões necessárias para a ajudar. Foi então que se recordou de alguém capaz, o que fez com que ela se sentisse genial. Agarrou bruscamente na manga de Laranjao e arrastou-o para a porta da rua, sabendo que estava a ser seguida pelo olhar desconfiado da familia que ainda permanecia sentada à mesa. O luar iluminava a estrada de terra batida por onde eles caminhavam, e as estrelas guiavam-nos pelos bosques. Finalmente alcançaram uma pequena cabana de madeira no meio da floresta. Laranjao arfava de cansaço, mas Angel sentia-se entusiasmada e correu até à porta da cabana. Quando se preparava para bater à porta, esta abriu-se automáticamente, chiando suavemente e fazendo-se sentir o calor do interior. Angel ouvia uma voz suave e delicada atrás de si e voltou-se. Ali estava ela, a sua grande confidente, a quem recorria nos momentos mais dificeis.
- Angel! - exclamou Vanilla enquanto a abraçava - Já não te via há uns bons meses! Não sabes que é falta de educação entrar nas casas das pessoas sem permissão?
- Mas eu... Mas a porta abriu-se sozi...
- Cala-te e conta-me por que o trouxeste para aqui - interrogou-a Vanilla, apontando para Laranjao.
- Olá Vanilla... Hmm... Tudo bem? - improvisou Laranjao.
- Ainda não me esqueci do que me fizeste! - gritou Vanilla.
- Esquece lá o rapaz, Vanilla! - interviu Angel - Temos um problema grave, muito grave...
- Grave?? Deixa-me imaginar: o nome dela começa por "s" e acaba num "a"...?
Laranjao e Angel trocaram um leve olhar. Parecia que o boato já se tinha espalhado por toda a cidade. Angel decidiu dar o primeiro passo, já que Laranjao permanecia em silêncio, pensando e murmurando algo que ela não conseguia entender.
- Vanilla! Precisamos de ti para a nossa viagem! Temos de encontrar a princesa! Ela foi raptada pelo Reino Mosgäme! Ajuda-nos... Ajuda-nos! - ajoelhou-se vagarosamente enquanto lhe pedia ajuda.
- É p'ra já! - guinchou Vanilla.
Angel ficou estupefacta. Aquela reacção fez com que Laranjao prestasse mais atenção a Vanilla, vendo os seus longos cabelos castanhos e lisos de elfa esvoaçando com a brisa suave. E olhou, indeciso, para a prima, que permanecia imóvel. O silêncio tomou conta deles, até que Vanilla falou:
- Então? Ninguém fala?? Quando partimos? Tenho de me preparar! Para onde vamos? Quem vai connosco?
Angel foi-lhe explicando que partiriam no dia seguinte, se possível, e que iriam apenas eles os três para não chamarem muito a atenção. Também a avisou dos perigos que iria ter de enfrentar.
- Aranhas voadoras?! Hein?? Isso não existe - replicou Vanilla.
- Tu não sabes... - sorriu Angel.
- Eu sou uma pessoa viajada, já participei em várias aventuras!
- Lá isso é verdade...! - refilou Laranjao lembrando-se das partidas de Vanilla.
- Cala-te que não me apetece falar contigo! - disse Vanilla, exaltada.
- Como queiras... - afirmou Laranjao enquanto se afastava para o mato para voltar para casa.
Angel rugiu de raiva. Aquele rapaz só lhe dava problemas e ela não queria atravessar o bosque sozinha. Por isso gritou, guinchou, até que ele parasse e esperasse por ela. E combinou o seguinte com Vanilla:
- Amanhã, na Fonte d'Ouro, sem falta. Leva mantimentos, roupa, mas não te sobrecarregues!
- Está bem, amanhã discutimos os pormenores desta viagem que eu não entendi muito bem - disse ela, rindo.
Despediram-se e Angel correu até Laranjao e seguiram até casa. Nessa noite, Laranjao não conseguiu dormir, não só porque ouvia a prima a roncar no quarto ao lado, mas também porque estava preocupado e ao mesmo tempo, excitado.
II
Um novo dia chegara, sereno, aprisionado numa brisa quente e suave, acompanhada por um céu alaranjado que fazia com que o horizonte longínquo parecesse infinito e misterioso. Os lírios deliciavam-se com o orvalho que a noite lhes havia oferecido, libertando um cheiro delicioso a primavera. As ruas continuavam desertas, pois era Domingo, o dia de descanso obrigatório do reino. No cimo de uma colina, porém, duas pessoas discutiam como duas crianças de cinco anos.
- Como assim não trouxeste comida?! – Gritava Angel.
- Bem… Acho que tu é que te devias ter lembrado desse pormenor – Respondeu Laranjao, suspirando.
- Tu sabes muito bem que há pessoas que ficam doentes por causa dos meus cozinhados!
- Eu que o diga… - Retorquiu Laranjao enquanto olhava para o relógio – Estamos atrasados…
- OMG! Porque é que não disseste mais cedo! CORRE! – Gritou Angel antes de começar a correr.
- Angel! Não grites! Não podemos dar muito nas vistas! – Queixou-se Laranjao.
- L, tu sabes bem que ninguém vive aqui…
- Na realidade… Tenho a certeza de que estamos a ser perseguidos… - sussurrou Laranjao, enquanto agarrava Angel e se escondia atrás de uma arvore.
E estavam mesmo a ser perseguidos mas, para grande surpresa deles, era alguém que eles conheciam! Angel saltou de trás da árvore e gritou:
- D.A.!!! Quem te mandou seguir-nos!
- Hey… Só queria ver onde é que vocês iam… – Replicou D.A.
- Não tens nada a ver com isso! – Exclamou Angel.
- Bem… Eu disse ao meu pai que ia viajar convosco… - suspirou D.A. – Acho que agora me vão ter de levar…
- ‘Tás a brincar comigo?! Ainda te magoas!
- Na realidade, essa vai ser a parte gira! É que eu disse isso ao meu pai… Levem-me, levem-me!
Entretanto, L. saiu do seu esconderijo e foi ter com D.A. para lhe contar a razão. Angel olhava para ambos, matutando se D.A. alguma vez iria entender…
- Pensam que sou burro? – Exclamou D.A. – Já sei dessa história há séculos… E posso dizer que… As paredes têm ouvidos! Ah! Angel, isto também se aplica a ti…! Estou farto de te ouvir a ressonar!
- Ai! Eu mato-te! – Berrou Angel.
***
Chegaram à Fonte D’Ouro trinta minutos atrasados. Encontraram Vanilla deitada num banco a dormir pesadamente. Angel tentou acordá-la, mas não conseguia. D.A. berrou para ver se ela reagia. Mas ela não dava quaisquer sinais de vida!
- Será que está morta? – Perguntou Angel boquiaberta.
- Claro que não – Disse L. pegando num balde e enchendo-o de água – Isto vai ser divertido…
Quando o balde estava finalmente de novo nas mãos de L., ele deu uma gargalhada malvada e jorrou toda a água na cara de Vanilla. Consequentemente, esta começou aos berros estridentes e a correr à volta da fonte. Segundos depois, parou e olhou em redor, olhando mais atentamente para os seus três amigos:
- Qual de vocês foi?!
- O Laranjas! – Disseram Angel e D.A. em uníssono.
Vanilla riu baixinho e pegou num machado que estava perto da fonte. Laranjao ficou imóvel pensando se ela alguma vez era capaz de o usar. A elfa aproximou-se e parou em frente do Laranjao. Lentamente, deu-lhe o machado:
- Acho que devíamos levar isto.
- Pois, eu acho que ela tem razão, prima – Disse D.A. a Angel.
- Se alguém nos atacar, temos como nos defender! – Exclamou Angel.
- Mas não se esqueçam que eu tenho alguns truques e segredos na manga… – Disse Vanilla, calmamente e sem pensar.
- Temos de ir pessoal! Rápido! – Gritou L. – O tempo passa, sabiam?
Seguiram apressadamente pela estrada, rumo a uma grande aventura. O que os iria esperar?
III
O calor fazia com que todos se sentissem desconfortáveis e sedentos por água, por isso faziam todas as paragens que pudessem para se reabastecerem. E foi numa dessas paragens que eles conheceram uma arqueira do Reino de Hüasnar. Ela tinha longos cabelos castanhos, ornamentados de missangas, que lhe davam um ar exótico. As suas vestes escuras como as trevas esvoaçavam ao vento enquanto procurava dinheiro nos bolsos.
- Bem, foi um prazer estar convosco aqui, tio – Disse ela – Talvez isto ajude…
- Tsuki, nós não precisamos de qualquer ajuda, conseguimos sobreviver sozinhos!
- Eu sei… Mas na eventualidade de um ataque, já têm como se safar…
- Podes ter razão mas, apesar de esta zona ser instável, é sempre possível encontrar outras alternativas.
- Não me contradiga. Não quero que tenha um final como o dos meus pais – Continuou Tsuki.
- Eu só aceito porque me pediste. Leva estes pães, caso sintas alguma necessidade…
- Obrigada! Nunca me vou esquecer da maneira calorosa como me acolheram aqui.
Os quatro amigos estavam a alguns metros de distância, servindo-se da fonte de água límpida que lá havia, mas D.A., coscuvilheiro como ele é, ouvia a conversa animadamente. Todos os conhecidos deste rapaz tinham tido problemas com eles, pois ele sabia sempre todos os detalhes de todos os segredos de todas as pessoas de todas as cidades. Angel achava isso bastante perturbador, porque ele adorava falar sobre o seu amor platónico por príncipes belos, mas estas situações eram sempre cómicas para quem os acompanhava. A arqueira aproximou-se deles e perguntou-lhes se eles tinham um mapa.
- Temos! É a Vanilla! – Respondeu Angel.
- Pois, mas eu precisava de um mapa de papel…
- Se quiseres desenho-te um – Ofereceu-se Vanilla.
- Obrigada! – Respondeu Tsuki animadamente.
Vanilla desenhou-lhe um mapa, dando a Tsuki tempo para conversar com Laranjao e Angel. Pelo que puderam entender, era órfã. Seus pais tinham sido mortos por um grupo de bandidos de uma aldeia vizinha que ansiavam por poder e que frequentemente atacavam a aldeia. D.A. conseguiu então ligar o que tinha ouvido da conversa com o que ela lhes estava a contar agora: ela queria proteger os tios que, pelo que ela também havia dito, eram os seus únicos familiares vivos. Quando finalmente estavam prontos a partir, despediram-se de Tsuki e seguiram em frente.
Cerca de cinco minutos depois, começaram a ouvir gritos e automaticamente, L. voltou a correr para a aldeia, deixando o resto do grupo para trás.
- De que estão à espera? – Gritou Vanilla – Sigam-no!
Vanilla começou a correr o mais rápido possível, seguindo Laranjao e deixando os outros para trás que permaneciam imóveis. Depois de ponderarem um pouco, Angel e D.A. prepararam-se para correr e seguiram Vanilla até à aldeia.
Laranjao ficou imóvel em frente à entrada da aldeia, envolta num mar de labaredas, um autêntico inferno para muitos, um churrasco barato para outros. Segundos depois, Vanilla alcançou Laranjao e olhou da mesma maneira para a aldeia.
- O que podemos fazer? – Perguntou ela, assustada.
- Lutar! – Gritou Laranjao.
- Lutar?! – Disseram D.A. e Angel ao mesmo tempo quando estavam finalmente em frente ao portão.
- É óbvio que são os aldeões inimigos. Temos de ajudar as pessoas da aldeia! - Esclareceu Laranjao.
Entraram pelas frágeis muralhas de madeira, esperando encontrar alguns mortos. Ficaram surpresos ao ver Tsuki lutar contra vários inimigos, ora usando o seu arco, ora usando uma faca de bolso quando os inimigos estavam perto dela. A destreza dela fez com que Vanilla ficasse espantada, e a velocidade a que lutava assemelhava-se à dos elfos.
Laranjao juntou-se a Tsuki e gritou a Angel para levar todos os habitantes da aldeia para um local seguro. D.A. divertia-se a atirar pedrinhas com a sua fisga à cabeça de alguns, que caíam no chão, desmaiados. Vanilla encontrava-se junto a um poço, lutando contra um homem corpulento, que acabou por ficar submerso nas profundezas húmidas deste.
Entre o som das espadas, ouviu-se um apelo:
- Socorro!
- TIO! – Exclamou Tsuki, correndo em direcção à casa destes.
Quando entrou em casa deste, Tsuki ficou paralisada, olhando um homem alto e loiro preparando-se para matar o seu tio. Ela não tinha como matar o assassino, pois este estava do outro lado da sala e com o arco podia acertar no seu tio. Ouviu um gemido, e o homem caiu no chão, largando imediatamente o seu tio. Era Vanilla quem o tinha morto. Ela tinha entrado pela porta das traseiras sorrateiramente, e atirara uma das suas adagas às costas do desconhecido.
- Obrigada, obrigada… – Agradeceu o tio.
- Tsuki, anda! Temos de salvar o resto da aldeia, ainda há vários inimigos por aí!
- Vamos! – Concordou Tsuki.
Juntas saíram da casa e começaram a esquartejar todos os homens que usavam o capacete com o símbolo da outra aldeia. Avistaram Laranjao e D.A. trabalhando em grupo, mas não havia sinais de Angel.
- Vanilla, junta-te a eles – Ordenou Tsuki – Eu vou procurar a vossa amiga, conheço esta aldeia como a palma da minha mão!
- Não te preocupes connosco então! Procura-a!
Tsuki correu em torno da aldeia, mas não havia sinal dos habitantes salvos, nem de Angel. Começou a ficar cada vez mais nervosa e desesperada. Ouviu gemidos dentro de um barril e abriu-o. Lá dentro estava um rapaz com cerca de sete anos.
- TSUKI! – Disse ele – Os homens maus levaram a mamã e os meus amigos para a floresta.
- Círio, fica aqui, tudo vai correr bem. Prometo-te! – Prometeu ela seguindo em direcção à floresta.
A escuridão que as árvores provocavam era tenebrosa, mas ajudava-a a camuflar-se. Começou a ouvir vozes à medida que se aproximava e, entre essas, distinguiu a voz da sua tia.
Avistou gente e escondeu-se atrás de um arbusto. Estavam cinco homens a guardar os prisioneiros, um deles agarrava Angel, que se tentava libertar.
- Ou paras, ou vamos ter de te matar! – Berrou um deles.
- Larguem-me, larguem-me! – Gritava Angel desesperadamente.
Tsuki não tinha tempo para pensar num plano. Tinha de agir o mais rapidamente possível! Agarrou o seu arco e acertou no soldado que agarrava Angel. A arqueira tentou tirar uma nova flecha, mas não sentiu nenhuma. Ela estava sem flechas! Como poderia ela agora defrontar aqueles quatros soldados sem a sua arma de eleição? Agarrou na sua faca e saiu de trás dos arbustos. Os soldados avistaram-na e começaram a correr em direcção a ela dando oportunidade de escapar aos prisioneiros. Angel, no entanto, seguiu os soldados com a espada que o soldado morto tinha largado.
Ouviu-se o ecoar das espadas. Tsuki lutava avidamente, com a faca contra um soldado, e Angel fugia dos restantes até ficar cansada. Ela parou, olhou para trás, e como se uma força divina tivesse descido dos céus, começou a lutar. Tsuki, ficou estupefacta e correu ao seu encontro. Ambas conseguiram acabar com eles e ajudaram os aldeões feridos a voltar à aldeia.
Quando lá chegaram, encontraram L., D.A. e Vanilla sentados no chão. Vanilla limpava as lâminas das suas duas espadas, e os restantes pareciam impacientes por saber o que acontecera a Angel…
- Angel! Estás viva! – Gritou D.A. com muita alegria.
- Assustaste-me, sabias…? – Disse Laranjao, calmamente.
- Eu sabia que ela estava bem. – Sorriu Vanilla.
Tsuki juntou-se a eles, fazendo flechas para substituir as que haviam acabado. Escutava os quatro amigos a falar da sua viagem de resgate e não aguentou mais sem dizer:
- Eu vou convosco! Tenho uma divida para com todos vós!
- Tens a certeza? – Perguntou L.
- Sim… Já pude concluir que vocês têm um bom objectivo e que são boas pessoas… Seria um prazer para mim ajudar-vos!
- Se assim o desejas… Vem connosco! – Exclamou D.A., entusiasmado.
- Tomem alguma comida… – Disse uma voz.
- Tio, muito obrigada! Estava esfomeada… – Disse Tsuki ao tio.
- Eu ouvi a vossa conversa… Tsuki, promete-me que vais ter cuidado… Não quero que desapareças deste mundo tal como desapareceram os teus pais.
- Tio, não se preocupe. Sei tomar conta de mim! – Confortou-o Tsuki, abraçando-o.
Tinham mais uma amiga para os ajudar a salvar a princesa. Vanilla tinha uma pergunta em suspenso e finalmente teve coragem para perguntar.
- Tsuki, tens algum antepassado elfo?
Tsuki ficou pensativa e hesitante. Finalmente respondeu:
- A minha mãe era filha de um humano e uma elfa. Por isso, o sangue de elfo corre-me nas veias.
- Eu sabia! Fico feliz por ter alguém com características parecidas com as minhas… – Disse Vanilla – Apesar de o teu aspecto não demonstrar que és elfa…
***
Ao final da tarde partiram, mais um dia tinha passado e o tempo escasseava. Tinham mais uma aliada para os acompanhar, tornando a sua corrente cada vez mais forte e impenetrável. O horizonte sorria-lhes, convidativo e sereno, e eles seguiam o seu caminho em direcção ao reino malvado.
IV
Entretanto, três dias passaram, e os nossos viajantes continuavam a sua aventura, rumo ao reino Mosgäme. A noite caía lentamente, aquando estes se aproximavam de uma grande cidade, cujas janelas se começavam a iluminar, lentamente, uma a uma. D.A. estava excitado por ir àquela cidade porque ele sabia que nessa noite iria haver uma exibição de magia e feitiçaria. Porém, Angel não estava muito entusiasmada, pois odiava tudo o que estivesse ligado à magia. Vanilla e Tsuki conversavam alegremente enquanto seguiam L., que liderava o grupo.
Tsuki já se tinha integrado no grupo e tinha criado uma forte amizade com Vanilla. Agora, ambas tinham o cabelo ornamentado de missangas, aumentando ainda mais o seu exotismo.
Ouviam-se crianças a rir nas ruas da cidade, correndo em direcção ao centro esperando conseguir ver o espectáculo na frente. Laranjao pediu ao resto do grupo para fazerem o que quisessem, enquanto ele procurava uma estalagem, e para se encontrarem na hora do espectáculo. D.A. pediu às amigas para lhe comprarem algodão doce, mas nenhuma se dignava a fazê-lo, e riam da maneira como ele desesperadamente olhava para os doces.
- Por favor! Só queria um algodão doce… Prima! Por favor!
- Oh D.A., ainda não entendeste que ela não te vai dar? – Disse Tsuki.
- Ele sabe bem… Vai mas é pedir a alguém que encontres por aí! – Riu Angel.
- E é mesmo isso que vou fazer! – Exclamou D.A., e correu pela rua abaixo.
- Bem, parece que só estamos nós as três… Vamos ver aqueles vestidos… – Disse Angel.
***
Laranjao encontrava-se no outro lado da cidade e já tinha encontrado uma pousada. Agora dirigia-se a uma taberna chamada “O canto do,,, Fotogui”. Sentou-se no seu canto e pediu um whisky.
- Ora aqui está o seu whisky! – Disse o empregado.
- Muito obrigado.
Na hora de pagar, Laranjao não encontrava a sua carteira e tentou sair à socapa. Mas foi impedido por um homem com cerca de dois metros de altura, e também dois metros de largura.
- Da minha taberna… Ninguém sai sem pagar!
Laranjao recuou, indefeso. Os outros clientes olhavam para L. como se soubessem o que lhe iria acontecer. Ouvi murmúrios dos quais conseguia destacar “Nunca ninguém se safou do Fotogui” e “Ele vai morrer!”.
- Desculpe… Esqueci-me do dinheiro na minha bolsa… – Desculpou-se Laranjao.
- Devias ter-te lembrado disso antes de cá entrar, meu caro! – Rosnou Fotogui.
Fotogui pegou no seu bastão de madeira e tentou acertar em Laranjão, mas este conseguiu-se esquivar e fugir pela porta. Enquanto corria conseguia ouvir Fotogui a berrar atrás dele, fazendo a terra quase estremecer. Pelo caminho encontrou Vanilla, Tsuki e Angel que olhavam estupefactas para ele.
- FUJAAAAAAAAAAAAAAAAM! – Gritou Laranjao, agarrando-as.
Rapidamente atraíram a atenção de várias pessoas que se encontravam na cidade e que também conheciam os castigos do Fotogui. O gigante ia perdendo terreno à medida que eles se afastavam da zona centro. Viraram numa rua escura e esconderam-se. Viram Fotogui a correr em frente, e isso significava que o caminho estava livre. Laranjao olhou para as amigas e desejou que nunca as tivesse agarrado. As três estavam com cara de quem queria matar alguém, e L. já sabia que ia sofrer durante um bom bocado.
***
D.A. finalmente conseguiu comprar algodão doce, juntando trocos que tinha nos bolsos, e comia-o enquanto olhava para os artigos à venda. Olhou para uma montra e viu alguém atrás dele, mas quando se virou, não estava lá ninguém. Ficou em pânico, mas depois concluiu que devia ser uma partida da sua imaginação.
O relógio deu as 9 badaladas… Estava na hora do espectáculo! Correu até ao palco, e distinguiu rapidamente o cabelo da Tsuki, colorido e personalizado, no meio da multidão.
- Então, divertiram-se? – Perguntou ele.
- Imenso… – Disse Laranjao aborrecido.
- Sim, claro – Exclamou Angel, suspirando.
O espectáculo começou, e um homem encapuçado entrou no palco. Surgiu uma nuvem de cores que fascinava D.A. de uma maneira descomunal. A multidão reagia como se estivesse hipnotizado, dizendo “Ohhh” sempre que algo de extraordinário acontecia. Angel bocejava porque aquele tipo de espectáculo não a atraía. Vanilla olhou para trás e não viu D.A., mas ela tinha a certeza de que ele se havia aproximado do palco para ver melhor.
***
D.A. lutava contra alguém que o tinha agarrado e tentava gritar, sem sucesso, pois estava com a boca tapada. Foi levado para um armazém onde constatou sinais de feitiçaria nos objectos que via. O raptor disse-lhe calorosamente:
- Não te preocupes, não te vamos fazer mal… Temos de esperar pelo mestre.
- Porque me trouxeram para aqui? – Gritou D.A.
- Não encontrámos nenhuma maneira melhor para poder falar contigo senão esta. O mestre já deve estar quase a acabar. Não te preocupes.
O homem saiu da sala, deixando D.A. preso no centro da sala. Viu ao longe um livro de feitiçaria e conseguia ver inúmeros bastões mágicos encostados a um armário. O cheiro forte da sala fez com que este adormecesse lentamente, confortavelmente na poltrona em que ele se encontrava amarrado…
***
Acordou desorientado. A noite, já avançada, deixava os grilos cantarem no exterior. D.A. olhou em volta e viu um homem de costas, com cabelo grisalho a escrever algumas anotações.
- Quem és tu? E porque me trouxeste para aqui?
O homem virou-se e D.A. ficou paralisado. Era o homem do espectáculo, o mágico!
- Sou o Matripisko, mágico. Prazer em conhecê-lo!
- Olá…
- Deves estar confuso… Eu sei que sim. Mas tu és um rapaz muito especial, e foi por essa mesma razão que te trouxe aqui. O teu poder mágico é incrível! Eu consegui senti-lo a quilómetros de distância de ti!
- Isso é impossível… – Disse D.A.
- Não, não é. E esta noite, vou fazer de ti um mágico. Eu sei do teu objectivo e creio que a magia te ajudará.
Durante toda essa noite, D.A. e Matripisko trabalharam em conjunto. O jovem rapaz descobriu o potencial imaginável que possuía. Recebeu um bastão de madeira com uma safira mágica e um livro de feitiços para poder estudar.
- Salva-a. Tu podes fazer a diferença! – Gritou Matripisko ao despedir-se de D.A.
- Eu vou conseguir! – Disse D.A. e começou a correr em direcção à estalagem.
V
Angel avistou D.A. a correr com um livro e um bastão e começou a chamar por ele, zangada.
- Estávamos tão preocupados contigo! Onde te meteste?
- Prima… Não vais acreditar no que me aconteceu!
E seguiram até à estalagem para se encontrarem com o resto do grupo. Laranjao levantou-se quando os viu a entrar, e Vanilla e Tsuki correram para o abraçar.
- D.A., Não tornes a fazer isto! – Exclamou Vanilla.
- Prometo que não…
***
Quando tinham finalmente voltado à sua viagem, D.A. começou a contar todos os detalhes do que lhe tinha acontecido. Angel estava espantada, o primo dela tinha sangue de mágico!
- Ai é? Se és mágico, mostra lá alguma coisa para a gente ver… – Ordenou Angel.
- É p’ra já!
D.A. agarrou no bastão e murmurou algo em direcção a Angel. Vanilla olhou para o lado e Angel já lá não estava.
- OMG! O que fizeste à Angel!? – Exclamou Vanilla.
- Acho que a encolhi… - Disse D.A. e começou a chamar pela prima.
Ouviram uma voz baixa e estridente:
- D.A.! Vais levar! Quando eu disse ao teu pai o que tramaste durante todo este tempo… ‘Tás lixado!
- D.A., ela tem razão – Disse Tsuki – E que tal devolveres-lhe o seu tamanho original?
- Ah… Pois… Eu… Hmm… Não sei o contra-feitiço…
- Tu o quê!?! – Disseram todos em uníssono.
- Esperem! Vou ver no livro!
Antes de conseguirem finalmente anular o feitiço, Angel foi um sapo, uma vassoura, um caixote do lixo, uma panqueca e uma peruca.
***
Subiram uma montanha rochosa, coberta de plantas rasteiras. Angel tocava flauta durante o caminho e Tsuki cantava uma melodia típica de Hüasnar. D.A. lia o seu livro, tropeçando várias vezes no chão. Laranjao continuava na liderança, dando paços largos e rápidos. Ao longe avistou um homem cuja capa preta esvoaçava ao vento. Ele estava sentado, vendo um mapa e olhando em redor à procura de algo.
- Boas… – Disse Laranjao.
- Boas amigo – Disse o homem – Sabe onde fica a cidade mais próxima?
- Claro, estamos a seguir para lá neste momento.
- Será possível acompanhar-vos? É que eu não sou muito bom com mapas…
- Claro… Hmm…
- Skorpion, pode-me chamar Skorpion.
- Tenho a sensação que conheço o seu nome de algum lado…
- É impressão sua…
O caminho era cada vez mais inclinado e perigoso à medida que subiam a montanha. O vento forte fazia os cabelos compridos das raparigas esvoaçarem violentamente, e poeira era arrastada no ar. Ouviram vozes:
- Ele tem de andar por aqui!
O grupo escondeu-se atrás de um grande pedregulho e viram um grande exército passar por eles. Laranjao pensou “De quem andarão à procura? Á nossa procura não é, de certeza…”. Olhou para Skorpion e viu que este estava nervoso, tentando esconder-se debaixo da capa de D.A., assustado.
Quando os soldados haviam passado, Laranjao confrontou Skorpion:
- És algum criminoso?
- Eu? Eu não sou nenhum crimi…
- Não mintas! Eu sei bem que eles andam atrás de ti!
- Não sou um criminoso! – Gritou Skorpion, e vários pássaros começaram a voar, assustados.
- Então és o quê?
- Bem… Não sei se ouviram falar do príncipe de Hüasnar que fugiu do reino para não ter de aceitar a coroa…
- OMG! O príncipe de Hüasnar? Eu sou de Hüasnar! – Exclamou Tsuki – Eu ouvi essa história… Estou preocupada com ele…
- Pois… Ele… Sou eu. – Disse Skorpion.
Todo o grupo olhava agora para ele, atentamente. Aquele jovem alto e moreno era um príncipe! Um príncipe fugitivo, para contrastar.
- Mas porque é que não queres aceitar a coroa? – Perguntou Vanilla.
- Não gosto da fama, quero ser livre, viver do meu próprio estilo…
- Como assim? Eu dava tudo para ser rainha… – Disse Angel.
- Se fosses rainha, os habitantes do teu reino fugiriam – Disse D.A. antes de levar um soco de Angel.
- Peço-vos… Ajudem-me! O meu irmão mais novo pode tomar conta do trono… – Pediu Skorpion – Deixem-me ficar convosco… Prometo que não vos estorvo…! Só quero chegar à cidade das Sete Pérolas e começar uma nova vida lá.
- A cidade das Sete Pérolas é um mito – Disse Tsuki.
- Não, não é. Existe mesmo… É a cidade da música – Explicou Skorpion – Lá posso finalmente dedicar-me à viola…
- Oh…! Eu toco flauta! – Disse Angel, saltando.
- Acho que devias visitar a cidade então…
***
O grupo partiu, mais uma vez, mas descendo o monte, em direcção à cidade das Sete Pérolas. Mito ou realidade?
VI
- Segundo o que me disseram… A cidade fica mesmo atrás daquela cordilheira rochosa. – Disse Skorpion apontando em frente – Por isso devemos levar algumas horas para a atravessar se não fizermos qualquer pausa…
- Mas eu estou tão cansada! – Queixou-se Angel.
- Não eras tu quem tocava flauta? – Retorquiu Skorpion.
- Sim, é verdade… Mas… Eu sou humana! Preciso de descansar!
- Estou contigo prima… – Apoiou D.A. arfando de cansaço.
- Consigo avistar uma ribeira ali ao longe. – Avisou Vanilla olhando em redor.
D.A. correu ao encontro da ribeira e bebeu toda a água que conseguiu, voltando de novo ao estudo do seu livro de feitiços. As raparigas faziam os máximos para lavarem o cabelo e gritavam aos rapazes para se afastarem delas. Skorpion sentou-se na relva, mirando as nuvens no céu, avançando, num ritmo lento e cíclico. O último mês tinha sido arriscado para ele, proporcionando-lhe sensações nas quais podia distinguir o medo da morte e a adrenalina.
Antes de partirem novamente, Angel deitou-se ao lado de Skorpion e sussurrou:
- Eu gostava de ser uma nuvem… Viajar pelo mundo sem nunca morrer… Sentir a terra, o mar, sentir o frio gelado do norte…
- Os sonhos nunca se tornam realidade. – Suspirou Skorpion.
Angel levantou-se e olhou fixamente para os olhos de Skorpion. Os olhos dele ao sol ficavam de um tom acinzentado, que lhe davam um aspecto ainda mais misterioso que o original.
- O teu verdadeiro sonho vai-se tornar realidade se chegarmos à cidade das Sete Pérolas. – Disse Angel.
- Pois… Mas… E se ela não existe?
- Eu tenho a certeza que ela vai estar no sitio onde pensas que ela está… À tua espera.
Skorpion sorriu e levantou-se. Pegou na bolsa dele e anunciou que deviam partir.
O grupo acatou a ordem e seguiu Skorpion durante todo o caminho, esperando ver a cidade mítica.
***
No cimo da última colina, Laranjao viu um estranho brilho, vindo de uma árvore e correu até lá, deixando o resto do grupo para trás. Viu que o brilho se movimentava em volta da árvore e ouviu uma vozinha aguda:
- Quem és tu?
Laranjao tentou encontrar a pessoa que havia falado, mas não conseguiu.
- Sou o Laranjao… Onde estás?
O brilho aproximou-se dele e ele conseguiu constatar que era um ser humano. Um ser humano não! Era uma fada guardiã com asas de borboleta verdes e cabelos brancos.
- Eu sou a fada Alforat, protectora do Pomar Di Cluoro. Só as pessoas com um coração puro conseguem ter acesso a estas cerejas.
- Mas… O que têm essas cerejas de especial?
- Tiram-te a fome durante 48 horas.
- E como sabes que as pessoas têm corações puros? – Perguntou Laranjao.
- Todas as fadas têm um sexto sentido. Este, é o meu.
Alforat voou em redor de Laranjao e sentou-se em cima do ombro dele. Pegou na minúscula varinha dela e disse:
- Pipiru piru piru pipiru pi!
A cabeça de Laranjao começou a rodar, a rodopiar, deixando-o confuso e sonolento. Todas as suas memórias eram relembradas, todos os seus momentos tristes e felizes. Ele acabou por adormecer.
Acordou com todo o grupo à sua volta.
- Ele acordou! Tragam água! – Ordenou Vanilla.
- L.? Estás bem? – Perguntou Angel, preocupada – Estás aí deitado há duas horas…
- Tive um sonho… – Murmurou Laranjao.
- Um sonho? Que tipo de sonho?
- Esqueçam, estou a ser paranóico.
***
Andaram cerca de quatro horas e D.A. queixou-se de fome. Todos decidiram que deviam comer alguma coisa, e sentaram-se numa grande pedra com uma vista para todos os recantos à sua volta. Conseguiam ver terras longínquas, a quilómetros de distância.
- Laranjao, queres um pão? – Ofereceu Tsuki.
- Desculpa… Mas não tenho fome.
- Como assim não tens fome? – Exclamou Angel – Não comemos há dezasseis horas!
- Pois, mas se eu tiver fome, eu aviso-te.
- Tu é que sabes… – Disse Angel voltando de novo para o recanto Vanilla e D.A.
Laranjao pensou para si mesmo. Seria possível que aquele sonho com a fada tivesse sido real? Teria ele um coração puro, digno das tais cerejas que tiravam a fome?
***
Continuaram a sua caminhada até ao final do dia. Ao anoitecer chegaram finalmente ao sopé da montanha e viram-se rodeados por um espesso nevoeiro.
- Mas que nevoeiro tão espesso! Como é suposto atravessarmos isto? – Exclamou Tsuki, angustiada.
- Vou ver se há algum feitiço para criar luz… – Disse D.A..
- Este é o nevoeiro que avistei quando estávamos no cume… – Concluiu Vanilla. – Será que é crónico?
Um flash de luz fez com que todos eles estremecessem.
- Hehe, consegui! – Gritou D.A.
- Puseste um galho a arder. Consigo fazer isso sem magia… – Suspirou Angel.
Continuaram o caminho tacteando por entre as árvores, tropeçando várias vezes.
- Como vamos conseguir ultrapassar este nevoeiro tão espesso? – Divagou Skorpion. – Nunca vamos conseguir alcançar a cidade assim…!
Sentou-se desesperado no chão para pensar. Angel ficou a olhar para ele e pensou numa forma de o animar.
- Tu tens um sonho que se vai tornar realidade! Tem esperança!
Skorpion sorriu para Angel, que lhe retribuiu o sorriso. Levantou-se lentamente e olhou para o relógio de quartzo mecanizado que ele tinha construído. Faltavam cerca de 5 minutos para a meia-noite, o que significava que eles tinham andado no nevoeiro durante 5 horas. Suspirou, e disse aos amigos:
- Vamos continuar, havemos de lá chegar!
Andaram cerca de 50 metros e o nevoeiro que tapava o céu começou a dissipar-se, exibindo uma lua cheia, branca como a neve, demonstrando um romancismo típico de uma novela.
- Mas o que foi isto? – Murmurou Tsuki.
O nevoeiro em volta deles começou a desaparecer, como magia. Skorpion olhou para o relógio. Era exactamente meia-noite.
Deu meia volta para ver o nevoeiro a dissipar-se e deu de caras com luzes, muitas luzes. Casas com telhados vermelhos conseguiam ser avistados ao longe, com as suas chaminés clássicas, de tijolo. Todos estavam estupefactos, excepto Skorpion, que já avançava em direcção à cidade para a ver mais de perto.
Assim que viu uma nota musical numa das torres de vigia ficou certo de que aquela era a cidade que ele tanto procurava! Saltou de alegria, puxou Angel para a cidade, que também irradiava de alegria.
- Wow, isto foi surreal. – Disse Vanilla, ainda mirando o nevoeiro a desaparecer.
- Acho que alguém está muito feliz! – Disse Tsuki olhando para os dois amigos a correr em direcção à cidade.
- Vamos? – Perguntou D.A.
- Vamos! – Exclamou Laranjao.
E seguiram em frente, à espera de uma surpresa, ou talvez de aborrecimento.
VII
As belíssimas casas rústicas, de paredes brancas com floreiras nas janelas, faziam com que a cidade parecesse um sítio pacífico. As ruas pavimentadas, iluminadas por candeeiros, estavam vazias, por ser tão tarde. Várias fontes jorravam água fresca e límpida e, muitas delas, eram um tesouro, pois estavam cheias de moedas no seu fundo.
Skorpion correu por entre as ruas da cidade, juntamente com Angel, deliciando-se com as vistas e casas que se encontravam em seu redor. Angel ria, animada, enquanto seguia o amigo.
- Isto é real! Estamos na cidade das Sete Pérolas! – Exclamou Angel.
- Parece incrível… – Disse Skorpion, calmamente, diminuindo o passo ao qual corria.
- Sim… Parece que o teu sonho, teve um final feliz…
- Não teria cá chegado se não fosses tu. – Disse Skorpion – Obrigado.
Abraçou Angel, comovido. Angel retribuiu e sentiu-se confortável com ele, ficando naquela posição durante alguns minutos.
O resto do grupo chegou e Laranjao disse que tinha uma estalagem perto daquele local, segundo o que uma tabuleta da cidade. Todos o seguiram, caminhando apressadamente.
A estalagem era um pequeno palacete, com vista para o rio que pela cidade passava. A sua entrada de mármore dava um encanto majestoso e luxuoso ao edifício. Mal entraram, a temperatura amena no seu interior fez-se sentir, dando-lhes algum conforto. As tapeçarias ricas que cobriam o chão tinham vários desenhos, tanto geométricos como abstractos, e a grande escadaria que dava até ao segundo andar, fê-los sentir como se estivessem num castelo da Realeza.
Laranjao dirigiu-se à recepção e falou com o recepcionista durante dez minutos. Voltou aborrecido:
- Uma fortuna por noite aqui.
- L., se me permites, gostava de vos pagar esta estadia, como agradecimento. – Ofereceu-se Skorpion.
- Mas eu não posso aceitar… – Disse Laranjao.
- É puro agradecimento, meu caro L.
Skorpion dirigiu-se à recepção e voltou com algumas chaves. Distribuiu-as por todos os elementos e deu-lhes indicações das localizações dos quartos.
Vanilla subiu a escadaria sozinha, visto que, todos tinham ficado no primeiro andar, excepto ela. Procurava o quarto desesperadamente, mas não o conseguia encontrar! O palacete parecia muito maior do que aparentava visto pelo exterior, e tudo aquilo era como uma ilusão óptica. Deu mais uma volta por todo o andar e suspirou, cansada. Pousou a bolsa dela no chão e sentou-se, mirando as paredes e os quadros que as enfeitavam. Fechou os olhos por uns segundos e ouviu um estrondo mesmo em sua frente. Abriu os olhos em pânico, e viu diante de si alguém caído no chão.
- Raios para as malas que os hóspedes deixam no chão! – Queixou-se a pessoa enquanto se levantava.
Vanilla continuou a olhar para a estranha pessoa, até que esta se virou e deu a entender que era apenas um rapaz. Era alto e moreno, com uns olhos de um castanho profundo. Pareceu atrapalhado quando reparou em Vanilla e tentou lamentar-se.
- Oh… Olá… Desculpa! Não tinha visto que estavas aí… Hehe…
- Hmm… Pois… – Disse Vanilla fitando o rapaz – Devias ter mais cuidado por onde andas…!
- Tu é que devias estar atenta aos sítios onde pousas as tuas coisas!
- Desculpa? – Vanilla levantou-se e ficou frente a frente com ele – Tu é que devias ser mais cuidadoso…!
- Tonta… – Sussurrou o rapaz, tentando com que ela não o ouvisse.
- O que disseste?
- Nada, nada!
- Mas afinal… Quem és tu? – Perguntou Vanilla, bocejando.
- Sou o Matt, filho do dono do hotel! – Disse ele com um grande sorriso nos lábios.
- Pois, bem me parecia… Com essa fatiota… – Disse Vanilla.
- Hey! Não gozes com o meu casaco. O meu pai obriga-me a usá-lo para transportar malas e ajudar no hotel. – Disse ele, irritado – E quem és tu?
- Sou a Vanilla, da aldeia de Coeur.
- Hmm… Olá Vanilla…
Vanilla arranjava o cabelo, e Matt constatou que ela era descendente de elfos, deixando-o maravilhado. Só agora reparava na beleza que ela imanava, e como paralisava toda a vida à sua volta.
- Para onde estás a olhar? – Queixou-se ela – Podias era me ajudar…
- Uhh… Certo! De que precisas?
- Sabes onde fica o quarto 57?
- Mesmo à tua frente…
- O quarto és tu? – Perguntou ela, brincando.
- Não… O que está atrás de mim. – Suspirou Matt, envergonhado.
- Ah, ok! Então vemo-nos depois. Boa noite… – Despediu-se Vanilla enquanto abria a porta.
Matt ouviu a porta a fechar-se e fitou-a durante algum tempo, pensativo, mas acabou por voltar às suas tarefas, que neste caso, era dar asas ao sono.
***
Na manhã seguinte, Laranjao foi o último a acordar, e sentiu-se mal por isso. Mas ao descer, vendo todos os amigos divertidos a tomar o pequeno-almoço, voltou a ficar feliz, apesar de ainda ter a tristeza da sua perda. Quase um mês passara, desde que a princesa havia sido raptada, e isso perturbava-o. Achava que estava a demorar demasiado tempo a agir.
- L.! Vem sentar-te connosco! – Chamou D.A.
- Já vou!
Sentou-se na cadeira da ponta e olhou para todas as pessoas na mesa e viu que alguém não estava presente. Já não via Vanilla desde a noite anterior e ficou preocupado.
- Alguém viu a Vanilla? – Perguntou ele.
- Ah… A Vanilla… – Sorriu Tsuki – Ela parecia ocupada há uns minutos…
- Como assim?
- Parece que arranjou um amigo novo… – Suspirou Angel.
Nesse mesmo instante, Vanilla entrou na sala de jantar, seguida por um rapaz.
- Mas eu não estava a espiar-te! – Dizia-lhe ele.
- Matt, foste apanhado em flagrante… Ou vais-me dizer que só estavas a ver se a madeira da porta fazia Tic Tac?
- Vanilla! – Chamava ele desesperadamente.
Os da mesa riam-se da situação. Vanilla olhou para eles com cara de poucos amigos e eles calaram-se imediatamente. Seguiu até à sala de estar, com Matt atrás dela, tentando desculpar-se.
- Que trapalhão… – Suspirou Skorpion, enquanto comia uma tosta.
- Sem dúvida… – Apoiou L.
- Não comes, Laranjao?
- ‘Tou sem apetite…
***
Angel e Skorpion saíram junto nessa tarde, para procurarem uma loja de instrumentos mágicos. Angel encontrava-se relutante, porque continuava com a mesma opinião em relação a tudo o que era mágico. Skorpion tinha conseguido convencê-la a acompanhá-lo.
Desceram a avenida principal, em direcção à zona de artesanato da cidade e lá leram um cartaz:
“A cidade das Sete Pérolas é considerada por muitos um mito, pelo seu difícil acesso. O nevoeiro levanta-se uma vez por mês, durante a lua cheia, o que impossibilita a entrada e saída de pessoas.”
- Isto explica tudo. – Exclamou Skorpion.
Continuaram o seu caminho até alcançarem uma zona baixa, junto a um rio. Parecia uma rua comercial, mas de música e instrumentos musicais! Ambos olharam para todas as montras, até pararem numa loja chamada “Wilken’s music”. Entraram e admiraram todos os instrumentos no seu interior. Skorpion baba-se em frente às violas, e Angel sorria, vendo o rapaz fascinado.
Um homem atarracado perguntou se ela precisava de ajuda. Ela respondeu que não e que já tinha uma flauta que havia sido passada durante gerações, até chegar a ela.
- Uma flauta? Hmm… Menina, não se importa de me mostrar? – Perguntou o vendedor.
Angel tirou a flauta da sua bolsa de cinto e mostrou-a. O homem ficou parado a olhar para a flauta, pegou nela, tentou ter noção do seu peso, e olhou de novo para ela ao longe.
- Alguma vez lhe disseram que esta flauta é especial, menina?
- Como assim? – Perguntou ela.
- Esta á a Flauta dos sonhos.
- Flauta dos sonhos? O quê?!
- Se tocares uma certa melodia nesta flauta, consegues ter acesso aos sonhos das outras pessoas.
- Se há uma coisa que eu não gosto, é que me mintam! – Exaltou-se Angel.
- Eu não estou a brincar… Pode virar-se de costas?
Angel não sabia se se haveria de virar, mas acabou por o fazer, já que o homem insistia tanto.
- Essa tatuagem que tens no teu ombro, deve ser a melodia…
A mente de Angel parou no tempo. Aquela tatuagem era uma pauta musical? Voltou atrás no tempo e lembrou-se da avó, que lhe tinha feito a tatuagem, quando fez seis anos. Tudo começou a fazer sentido! A avó sabia sempre dos sonhos dela… O poder devia ter passado para ela, assim que a avó morreu.
- Você tem a certeza de que isto é verdade?
- Certamente, menina. – Respondeu-lhe o vendedor.
Skorpion ouvia a conversa atentamente e olhou para Angel vagamente. Ela tinha uma arma. Conseguia entrar na mente das pessoas enquanto dormiam. Isso sim, era mais fascinante do que as guitarras com que ele tanto tinha sonhado.
Saiu com Angel para fora da loja. Ela estava pensativa e queria um espelho, para ver melhor a tatuagem, por isso pediu a Skorpion para a deixar voltar ao hotel. Skorpion concordou porque achava que ela devia espairecer um pouco, e continuou a ver as lojas.
***
No hotel, ao entrar, Angel foi bombardeada pelas notícias de Laranjao:
- Sabias que só podemos sair daqui na próxima lua cheia?!
- Sim… Li isso num cartaz…
- Porque é que não nos disseste nada?
Mas Angel não o ouvia e continuou em direcção ao seu quarto.
VIII
Uma semana passou. A primavera estava agora no seu auge, e as flores estavam mais bonitas do que nunca. Continuavam hospedados no hotel, debaixo da asa de Skorpion, que ainda transportava uma grande fortuna, mas também tinham tido direito a um pequeno desconto por parte do dono do hotel.
Angel finalmente aceitara que a magia era agora parte da sua vida quotidiana e começou a invadir os sonhos das outras pessoas como passatempo, deixando Laranjao irritado. Tsuki aprendera uma nova técnica de fazer flechas e passava dias a aperfeiçoá-la.
***
Matt entrou sorrateiramente no quarto de Vanilla e deixou lá um ramo de flores com um convite. Já andava a planear aquilo havia dois dias e nada, mas nada, podia correr mal!
Vanilla passara cinco dias a treinar novas técnicas com as suas lâminas de prata pura, e era cada vez mais ágil. Tinha andado tão cega que nem reparara que Matt a continuava a espiar.
Vanilla foi à sala de jantar petiscar um pouco e encontrou Laranjao, que já tinha apetite de novo, o que deixou toda a gente mais descansada.
- Com que então… Tens um fã…
- Um fã? Eu? – Respondeu Vanilla, atrapalhada – Deves estar cego…
- Parece que o teu amiguinho do hotel tem uma fixação por ti… – Disse Laranjao antes de morder uma maçã.
- Hum, cala-te. – Replicou Vanilla, torcendo o nariz e virando costas ao amigo.
***
Angel estava no jardim das traseiras com D.A. e Skorpion. D.A. tentava aprender viola com o príncipe, mas não conseguia. Angel treinava algumas melodias das pautas que Skorpion lhe tinha comprado. Os pássaros anunciavam um dia quente e seco, piando alegremente nas árvores.
Eram quatro da tarde quando Angel teve vontade de comer, sendo seguida pelos dois rapazes. Ao entrar na sala, sentiu um cheiro a comida deliciosa e decidiu coscuvilhar a cozinha. Conseguia ouvir Matt a dar ordens aos cozinheiros, que pareciam estar a ficar aborrecidos. Angel ficou curiosa em relação àquilo… Seria uma celebração da cidade? Um dia de festa? Ela viria a descobrir a resposta duas horas mais tarde:
- Angel! Suplico-te! Faz com que todos vão passear à menos, menos a Vanilla! – Suplicava Matt.
- Mas o que queres com ela? – Perguntava-lhe Angel.
- É surpresa… – Disse Matt, troçando de Angel.
- Claro, claro.
- Oh, e faz-me um favor… Faz com que ela use um vestido minimamente bonito.
- E como pensas que vou fazer isso? – Perguntou Angel, estupefacta.
- Fazendo! – Exclamou Matt e correu de volta para a cozinha.
***
Vanilla achara o pedido de Angel estranho porque ninguém a tinha avisado que aquele dia era festivo. Mas ela aceitou usar um vestido, suspirando profundamente e lamentando-se por ter ouvido Angel. Arranjou o cabelo, fazendo-o parecer mais brilhante e liso do que o habitual.
Foi procurar Angel, mas não a encontrava em lado nenhum, por isso procurou Tsuki. Mas nem ela estava no quarto. Desesperou e foi à procura dos rapazes, mas não havia sinal destes, também. O hotel estava deserto, nenhum hóspede estava no corredor… Será que se tinham esquecido dela?
Voltou ao quarto, e reparou no ramo de flores que estava pousado no parapeito da janela e leu o bilhete que estava junto a ele:
“Vem ter comigo ao jardim das traseiras.
Ass: O teu admirador secreto”
Vanilla suspirou. Mais uma brincadeira de mau gosto! Desceu a escadaria pronta para gritar com alguém, mas, quando chegou ao jardim, ficou boquiaberta. Uma mesa solitária, com duas velas acesa no seu topo esperava-a. Ela ficou a olhar para ela, esperando que aparecesse alguém para a esclarecer. Aproximou-se da mesa para a examinar melhor.
- Olá! – Disse uma voz atrás dela.
- Matt? – Exclamou ela depois de se virar para a voz.
- Senta-te! – Pediu-lhe ele.
- Hmm… Está bem. – Aceitou Vanilla, assustada.
Sentou-se à mesa e Matt ia chamando o empregado, trazendo uma grande variedade de comida com um óptimo aspecto!
No final do jantar, Vanilla continuava intrigada e perguntou a Matt o motivo daquele jantar.
- Bem… Isto custa dizer… Mas…Mas… – Divagou ele.
- Mas, o quê?
- Gosto de ti! – Disse ele, e ofereceu uma rosa à elfa.
Vanilla olhou para ele, abrindo bem os olhos para o examinar… Pensou se ele estaria a brincar com os sentimentos dela, ou se estaria mesmo a ser real…
Ela levantou-se bruscamente, preparando-se para se ir embora, mas Matt agarrou-a e olhou-a nos olhos.
- Não fujas de mim…! – Disse ele solenemente.
Afastou o cabelo que tapava os olhos de Vanilla e beijou-a.
IX
Finalmente faltava um dia para a lua cheia seguinte. Laranjao já se começava a preparar para o evento. Mas Angel fez um anúncio:
- Hoje à tarde é o festival da música de Verão!
- Música de Verão…? – Perguntou Tsuki.
- Sim! O dono da loja de música acabou de nos avisar!
- Sim, é verdade… – Acompanhou Skorpion.
- Bem… Se não nos restar outra hipótese… – Disse Laranjao.
- Yay! – Gritou Angel de alegria.
- O nosso último dia juntos promete… – Cantou Skorpion.
***
D.A. ajudava a cozinheira a preparar uns petiscos para os amigos.
- Você tem mão para a cozinha! – Exclamou a cozinheira.
- A minha mãe dizia o mesmo… – Respondeu ele, suspirando.
A cozinheira sorriu para ele, e ofereceu-lhe uma fatia de bolo.
***
Ao meio-dia, Skorpion tocava viola. Tinha evoluído imenso desde que tinha começado a praticar, e várias pessoas paravam em frente ao hotel para o ouvir.
- Alguma vez pensaste em pedir dinheiro tocando? – Perguntou Angel.
- Não… Música é gratuita! Quero que todos me oiçam! – Disse ele alegremente.
Angel sorriu para ele e continuou a ouvi-lo tocar. Entretanto, Vanilla passou por eles e sorriu-lhes. Angel perguntou-lhe se o almoço já estava pronto.
- Sim! Eu já almocei! – Disse ela olhando em redor, mas fixou o seu olhar em alguém.
Skorpion riu enquanto a via correr em direcção a Matt, e puxou a Angel para dentro do hotel, para poderem almoçar.
***
O som dos tambores ecoavam na cidade, os saxofones estavam bem coordenados, as trompetes iam-se afinando. As ruas estavam repletas de gente, que lutava para ver a marcha. As majorettes de uniforme vermelho, faziam as delícias dos rapazes mais jovens, que lhes atiravam flores para lhes dar boa sorte. Angel tinha decidido juntar-se à marcha, à última da hora, e tocava sem cessar. O grupo estava disperso em grupinhos: Laranjao estava com D.A., Skorpion estava com Tsuki, e a Vanilla passeava com a sua companhia preferida…
- Sabes… Vou sentir a tua falta. – Contou Matt, a Vanilla.
- É verdade… Sinto-me mal por te deixar… – Suspirou Vanilla.
- Nem tudo está perdido… – Disse ele, abraçando-a.
Passaram por Tsuki e Skorpion e acenaram-lhes. Tsuki comia algodão doce e Skorpion uma maçã com chocolate na cobertura.
Aquela tarde prometia ser feliz.
Laranjao estava sentado à sombra, fazendo estratagemas mentalmente, para chegar ao reino de Mosgäme, mas nada do que ele pensava funcionaria… D.A. olhava para as majorettes a passar, entusiasmado.
A tarde continuou, a música reinou, e o dia acabou.
***
- Angel! Anda daí! – Gritava Tsuki do lado de fora.
- Espera! Já vou!
Angel abraçava Skorpion pela última vez:
- Prometo que voltarei assim que puder!
- Espero bem que sim… – Disse Skorpion, beijando-lhe a face – Boa sorte na tua viagem!
- Obrigada! – Despediu-se Angel, acenando.
- Vanilla, também devias ir…
- Já vou… – Ela continuava a despedir-se calmamente de Matt.
- Nem sei como vou aguentar… – Murmurou Matt.
- Vais conseguir…! Adoro-te! – Exclamou ela, e correu em direcção ao portão.
- Estão todos prontos? – Perguntou Laranjao ao grupo.
Todos acenaram afirmativamente e começaram a andar. As ruas encontravam-se quase vazias, com o chão cheio de flores, resultantes do festival. As luzes das casas iam-se desligando, uma a uma, dando uma escuridão arrepiante à cidade, que nem os candeeiros públicos conseguiam afastar.
Assim que chegaram ao portão, todos olharam para trás. O mês que eles lá tinham passado tinha sido muito feliz e uma parte deles queria ficar, mas a outra sentia obrigação de continuar a sua busca.
- Um dia havemos de voltar… – Disse D.A., animando os amigos.
Angel sorriu para ele, animada. E continuou em frente, atravessando o nevoeiro que estava a desaparecer.
Foi seguida pelos amigos, mas um grito fez todos parar e olhar para trás.
- Vanilla! Vanilla! Espera!
Era Matt, tinha vindo a correr e estava a suar descontroladamente.
- Decidi ir convosco!
- Tu? – Perguntou Laranjao estupefacto.
- Sim! De certeza que vos posso ajudar em alguma coisa!
Vanilla fez uma careta e abraçou-o intensamente.
- Oh! Angel! – Chamou ele.
- Diz…
- O skorpion pediu-me para te dar isto. – Disse ele, entregando-lhe uma caixinha.
Angel abriu a caixa e soltou uma expressão de surpresa, e pegou num colar que estava no seu interior. Era de prata e tinha um pendente em forma de nota musical. Angel sentiu-se emocionada e soltou algumas lágrimas. Tsuki abraçou-a na esperança de a reconfortar.
- Tsuki… Não precisas… Eu sou forte, deixa-me!
Tsuki sorriu para ela e deu-lhe uma palmada nas costas enquanto ela limpava as lágrimas.
- Bem, vamos dar as boas vindas ao Matt!
- Bem-vindo! – Diziam todos desordenadamente.
- Espero que estejas ciente… Esta viajem vai ser perigosa… - Disse-lhe Laranjao ao ouvido.
- Estou preparado… Aprendi umas coisas com a Vanilla.
Laranjao piscou-lhe o olho e atravessou o nevoeiro pouco denso. A aventura ia recomeçar! Todos estavam ansiosos por chegar a Mosgäme, que estava cada vez mais perto.
X
A escuridão cavernosa da masmorra era invadida pelo ruído provocado pela chuva que alagava a cela através da janela. As paredes de granito faziam com que a sala fosse fria e desconfortável. Um cobertor húmido estava pousado no chão, absorvendo parte da chuva que chegava à cela. Num banco de pedra, alguém estava sentado, pousando a sua cabeça entre as pernas, pensando. Um raio iluminou toda a divisão, evidenciado a identidade da pessoa. O seu longo cabelo castanho brilhava intensamente, à medida que a trovoada se ia afastando. Ela cantarolava baixinho, como se estivesse no seu próprio mundo, escrevia poemas nas paredes com pedras macias, que demonstravam o seu estado de espírito.
“Não há nuvens na minha tempestade,
Deixa a chuva cair sem parar…
Não te esqueças de sua majestade,
Vem-me buscar…”
A jovem mulher descobrira que tinha uma grande paixão pela escrita e continuava a demonstrar os seus sentimentos, através dessa via tão indirecta, que os soldados e guardas de Mosnär não conseguiam decifrar.
Passos lentos e metalizados aproximavam-se da sua cela, e ela levantou-se rapidamente e deitou-se na sua cama de palha, fingindo que estava a dormir. Ouviu a porta a abrir-se e passados alguns segundos, fechou-se. Tinham-lhe trazido alguma comida e água, a qual ela comeu rapidamente, porque a fome dela era demasiada para aguentar mais dez minutos.
Ela estava farta daquele sitio repugnante e queria sair de lá, mas era incapaz… Já tinha pensado em algumas maneiras para escapar, mas todas eram estúpidas, ou então não tinha coragem suficiente para as realizar. Mas nessa noite ela estava decidida! Tinha de fugir de lá ou não se chamava Sónia!
***
Os murmúrios vindos de outras celas não a deixavam dormir, então ela decidiu fazer algo criativo… Ou mortal. Pegou numa pedra e começou a lascá-la, tal como faziam as tribos mais primitivas do reino de Kalahan. Ela pensou que a poderia usar posteriormente como arma de autodefesa, caso lhe quisessem fazer mal. Bocejou e continuou a aguçar a pedra durante toda a noite.
***
Na manhã seguinte foi acordada na sua cela, tinha adormecido no chão, e o guarda pegava nela de uma forma indelicada e desconfortável. Sónia sentiu algo na sua mão: ainda tinha a pedra lascada. Sem pensar, olhou para a cara do guarda que lhe lançou um sorriso maldoso que depois se transformou numa cara de dor e sofrimento. Sónia conseguiu sair dos braços dele e viu-o contorcer-se de dores, gemendo e gemendo, até finalmente ficar deitado no chão, sem dar qualquer sinal de vida. A princesa roubou-lhe a capa suja e deitou-o na cama, fazendo um enorme esforço por conseguir pegar nele. Cobriu-o com um cobertor, para que pensassem que ainda era ela a dormir. Mas havia um pequeno pormenor: o cabelo do soldado era de um ruivo e não condizia com o tom dela. Pegou na pedra e cortou o seu longo cabelo com ela. Chorou ao cortá-lo, mas sabia que tinha de o fazer. Era agora ou nunca. Cobriu a cabeça do guarda com o cabelo que ela havia cortado e embrulhou-se na capa, para que não fosse reconhecida.
Saiu da cela sem olhar para trás, como se a conhecesse, tal como um guarda confidente. Ela subia a escadaria e um soldado cumprimentou-a. Ela limitou-se a acenar com a cabeça, para que não fosse levantada qualquer suspeita acerca da sua identidade. Os degraus pareciam infinitos! Ela nunca mais chegava à porta de saída…
Viu a luz do sol! Os seus raios iluminavam a última parte das escadas, e ela ficou radiante e nervosa. Saiu pela porta de madeira partida e viu diante de si uma grande cidade, embutida numa grande fortaleza, com portões de um tamanho astronómico. Um pequeno mercado vendia algumas frutas e ela conseguiu surripiar uma laranja, correndo logo de seguida, entrando no coração daquela cidade tão desconhecida para ela.
***
Quando se aproximou do portão, reparou que os soldados pediam identificação ou comprovativo de habitante a todos os que queriam sair. Ela desesperou e correu na direcção oposta, sentando-se em frente a um pequeno rio para pensar.
- Tem de haver uma maneira! – Murmurava ela.
Um pato era levado pela corrente do rio e Sónia viu-o descer e descer… Até desaparecer. Foi aí que teve uma brilhante ideia: podia fugir pelo rio!
Correu junto ao rio até chegar à zona da muralha. Mas ficou aborrecida, ao ver que a zona estava tapada. Então como é que a água conseguia sair pela muralha? De certeza que havia algum canal debaixo de água, e talvez ela o conseguisse passar… Pensou se seria capaz de suster a respiração durante o tempo necessário. Ela não tinha nada a perder, por isso… Porque não tentar?
Levantou-se e parou em frente ao rio. Fitou-o durante uns segundos, susteve a respiração e atirou-se.
Sentiu o frio da água da água invadir-lhe o corpo e nadou para as profundezas. Foi sugada e viajou num tubo largo de pedra, que a magoava, sempre que batia contra as extremidades.
***
Acordou numa margem, mas não ao ar livre. Estava numa gruta! Á sua volta, estalactites gotejavam, e o som tornou-se arrepiante. A gruta tinha alguma luminosidade, o que significava que, devia haver uma saída perto dali. Levantou-se, sentido as suas pernas doridas e dormentes, e seguiu a luz. No entanto ouviu vozes:
- Então foi assim que escapaste da cidade, seu maladro!
- Avô! Eu não quero viver lá!
- Nem me digas isso! Deixaste-me tão preocupado… Pensei que te tivesse acontecido alguma coisa.
Sónia escondeu-se atrás de uma rocha calcária, e esperou que os dois homens passassem. Começou por visualizar as suas sombras e pouco depois, constatou que eram um velho e um adolescente.
- Está aqui alguém. – Disse o velho.
O coração da princesa começou a bater cada vez mais rápido e ela sentiu-se a tremer. Os olhos do velho fixaram-se no local onde ela estava escondida.
- Podes sair daí! – Gritou ele – Não te vamos fazer mal!
Receosa, Sónia saiu do seu esconderijo e começou a correr devagar para o lado de onde provinha a luz.
- Princesa, espere! – Exclamou o velho.
O neto dele parecia ter ficado surpreendido.
- Avô?
Sónia parou e olhou para trás:
- Como sabe?
- Tenho uma capacidade única. Consigo ver o destino delas através dos seus olhos.
Sónia olhou para ele, parecia ser um homem amistoso.
- E o que vai fazer por mim? Entregar-me? – Perguntou ela, nervosa.
- Não. O teu papel vai ser crucial para que não haja uma guerra entre todos os reinos.
- Avô! Vamos ajudá-la a sair daqui!
O avô sorriu. E estendeu a mão a Sónia. E os três saíram da gruta, contando a sua história.
XI
Caminhavam por entre as árvores da densa floresta de Belénia, ouvindo o tilintar do orvalho que descia das folhas grossas das plantas mais rasteiras. Vanilla adorava aquele ambiente húmido, porque para ela, a água era centro da sua vida.
Já não comiam há um dia e já estavam bastante cansados e sub nutridos.
- Será que a floresta nunca mais acaba? – Perguntou Tsuki, sentada no chão.
- Bem, já estamos quase a meio… – Esclareceu Vanilla.
- A meio?! Já caminhamos há quase dois dias! – Ripostou Tsuki.
- Temos de nos aguentar…
- Tenho tanta fome… – Queixava-se D.A.
- Só pensas em comida. – Exclamou Angel enquanto o seu estômago dava horas. – Pronto, também tenho fome…
- Devíamos descansar… Preciso de uma boa noite de sono. – Propôs Matt.
- Acho que tens razão… – Concordou Laranjao.
Um a um, foram todos adormecendo, na terra batida.
***
Laranjao acordou num lugar diferente do qual ele tinha adormecido, e estava sozinho. Estava no centro de um jardim com várias árvores de fruta à volta.
- Olá de novo!
Era Alforat, a fada do Pomar Di Cluoro. Laranjao reconheceu de imediato o jardim! Ele já lá tinha estado… Mas era como se fosse uma memória que lhe havia sido apagada.
- Isto é um sonho. – Disse Alforat. – E vai ser vital para ti!
- Como assim?
- Vais-te lembrar onde guardaste as cerejas…
Laranjao lembrou-se de tudo, repentinamente. Abriu a sua bolsa e tirou um livro de lá de dentro. Abriu-o e no seu interior retirado, encontrava-se um saco de pano. Ele pegou no saco e constatou que haviam, de facto, cerejas lá dentro.
- Alforat, porque é que as cerejas ainda estão em bom estado?
- Magia… – Sorriu ela.
- Magia? – Perguntou Laranjao.
- Acho que está na hora de voltares! – Exclamou Alforat, soltando uma breve gargalhada. - Pipiru piru piru pipiru pi!
***
Laranjao acordou sobressaltado e suado. Todos continuavam a dormir, por isso ele decidiu ver se tinha, de facto, as cerejas na bolsa. Abriu-a, nervosíssimo, e deu um berro de alegria quando viu que as tinha!
Todos acordaram, assustados.
- L.! Cala-te! Deixa-nos descansar! – Queixou-se Angel.
Laranjao deu uma cereja a cada um dos amigos e eles ficaram a olhar para elas.
- Co…mi…mi…da… – Gaguejou D.A., babando-se.
- Uma cereja? – Perguntou Angel indignada.
- Vá! Comam! – Exclamou Laranjao, feliz.
Todos comeram a sua cereja e deliciaram-se com o seu sabor.
- Quem diria que esta coisinha me ia saciar! – Disse Tsuki, espreguiçando-se.
- Pois… Quem diria… - Disse Laranjao, sorrido.
***
Quando chegaram finalmente a uma pradaria, suspiraram. Finalmente tinham atravessado aquela floresta gigante!
Laranjao deu um passo em frente e ouviu algo a rosnar atrás de si e não, não era Angel… Uma matilha de lobos brancos preparavam-se para os atacar. Lobos brancos numa pradaria não era algo normal de se ver, logo, Laranjao concluiu que estavam muito próximos de uma zona de tundra, Oskavik, de certeza.
- Não era agora que tínhamos de fugir?! – Interrogou Matt.
- Penso que sim! – Gritou Angel e começou a correr.
O resto do grupo começou a correr, mas Vanilla parou e olhou para a matilha de lobos. Observou-os bem e constatou que eles continuavam na mesma posição, rosnando. A elfa aproximou-se deles, lentamente, sendo observada pelos amigos que se encontravam a alguns metros do local. Vanilla pôs a sua mão no pêlo de um dos lobos, e sentiu humidade, pareciam feitos de lama e não de pêlo! Os lobos começaram a desfazer-se e a transformarem-se numa massa acastanhada, que assustou Vanilla. Laranjao e Matt estavam receosos que algo lhe pudesse acontecer, e aproximaram-se. Tsuki preparou o seu arco, caso fosse necessário.
A estranha lama ganhava agora várias formas, até que se transformou em algo parecido com um ser humano.
- Bom dia! – Disse a “lama” bem-humorada.
- Bom… dia? – Repetiu Vanilla.
- Desculpem se vos assustei, mas não gosto que os coelhos se venham alimentar na minha horta… – Disse o estranho ser.
- Mas… Que coisa és tu?! – Perguntou Tsuki, intrigada.
- Eu não sou uma coisa! – Exclamou. – Sou um mudiaker.
- Oh, um mudiaker! – Repetiu D.A. muito excitado. – Li algo sobre mudiakers no meu livro!
- Já aparecemos em livros? Estou muito feliz por saber isso! – Disse o mudiaker. – O meu nome é Fantinhas, como se chamam?
Todos se apresentaram e contaram a Fantinhas o motivo da sua viagem.
- Ah… Já ouvi falar dessa história. Viajantes frequentemente passam por esta zona, e contam-me o que se passa noutros locais.
- Tem alguma notícia? - Perguntou Laranjao. – Estivemos um mês isolados…
- Sei que a princesa tentou escapar, mas não sei se isso é verdade… De verdade, nem sei se escapou ou se foi apanhada…!
Laranjao ficou confuso: a princesa fugiu, mas não fugiu?
- Venham comigo até minha casa, tenho todo o prazer de vos oferecer qualquer coisa para comer…
- Desculpe, mas não temos fome! – Disse Angel, rindo.
- Oh… Está bem. – Disse Fantinhas, decepcionado. – E pensam passar a noite aqui? Ao relento?
- Bem… Em principio não. – Disse Laranjao.
- Então podem dormir no celeiro! - Riu-se o mudiaker.
Um celeiro era mais confortável do que dormir no chão! O grupo seguiu Fantinhas e instalou-se no celeiro de madeira, junto à casa solitária que adornava a pradaria amarelada.

